domingo, 17 de março de 2013

Jesus e os Franciscos

O Fantástico de hoje exibiu uma reportagem sobre o Papa e disse que seu gesto de beijar os pés dos fiéis foi inspirado em São Francisco de Assis. Um telespectador entra em contato com a produção pra dizer que, na verdade, o gesto foi inspirado em Jesus, que beijou os pés dos discípulos. Então, Renata Vasconcelos, a apresentadora, diz que a reportagem tinha falado em São Francisco de Assis porque este ficou famoso por, dentre outras coisas, sua humildade, e que beijava, inclusive, doentes com lepra.

Vejam. Se a repórter tivesse um conhecimento mínimo das Escrituras, logo saberia que Jesus, na verdade, lavou, e não beijou os pés dos discípulos (ver João 13.1-11). E, a partir desses dados, poderia corrigir o referido telespectador com mais propriedade. Mas não - ela preferiu mostrar que um pecador como São Francisco foi mais humilde que Jesus, o Filho de Deus. O que ela talvez não saiba é que Jesus não somente curou muitos leprosos (Mt 11.5; Lc 17.11-19), mas, no maior gesto de humildade que alguém foi capaz, como se não bastasse se fazer carne - visto que era Deus -, padeceu por pecadores na cruz do Calvário.

Nenhum dos Franciscos será capaz disso, pois a nenhum deles poderia ser dito "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (Hb 1.5). Por isso, brademos com os reformadores: Solus Christus!

 

Share |

sábado, 20 de outubro de 2012

Conversando com Calvino sobre governo feminino

"Não permito, porém, que a mulher ensine" (1 Tm 2.12).

E quanto ao fato de as mulheres instruírem seus filhos, Calvino?

- Paulo não está falando das mulheres em seu dever de instruir sua família; está apenas excluindo-as do ofício do sacro magistério, o qual Deus confiou exclusivamente aos homens.

Mas e Débora, Calvino? Ela foi juíza em Israel (Jz 4.4)...

- Se por acaso alguém desafiar esta posição, citando o caso de Débora e outras mulheres sobre quem lemos que Deus, em determinado tempo, as designou para governar o povo, a resposta óbvia é que os atos extraordinários de Deus não anulam as regras ordinárias, às quais ele quer que nos sujeitemos. Por conseguinte, se em determinado tempo as mulheres exerceram o ofício de profetisas e mestras, e foram levadas a agir assim pelo Espírito de Deus, Aquele que está acima da lei pode proceder assim. Sendo, porém, um caso extraordinário, não se conflita com a norma constante e costumeira.

O que dizer, então, das atuais tentativas de legitimar o governo feminino nas igrejas?

- Todos os homens sábios sempre rejeitaram o governo feminino como sendo uma monstruosidade contrária à ordem natural. E assim, para uma mulher usurpar o direito de ensinar seria o mesmo que confundir o céu e a terra.

(Baseado no comentário de Calvino às Cartas Pastorais. Editora Fiel, 2009. p. 70, 71).

Share |

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Breve comentário a Lucas 12.16-21

"E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. 17 E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? 18 E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstruí- los- ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. 19 Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala- te. 20 Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? 21 Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus" (Lucas 12.16-21. ARA).

Acredito que, ao denunciar a avareza do "louco" da parábola, Jesus tinha em mente leis como a que encontramos em Levítico 19.9,10: "Quando também segares a messe da tua terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. 10 Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus". 

Paulo reforça esse entendimento em 1 Timóteo 6.17-19: "Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; 18 que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; 19 que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida".

Além de demonstrar falta de preocupação e amor para com o próximo, o avarento da parábola (bem como todo avarento) não confia na Providência divina. Ele está como o povo no deserto, guardando o maná para o dia seguinte (Cf. Êxodo 16.19-30). Depositam sua esperança em coisas perecíveis, esquecendo-se de que "nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4.4; Dt 8.3).
Share |

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O conceito de fé em 2 Coríntíos 5.7 - um brevíssimo comentário

Visto que andamos por fé, e não pelo que vemos (1 Co 5.7 - ARA).
Geralmente as pessoas usam esse texto para combater o materialismo (aquele do tipo “Tomé”, digamos). Mas penso que não é exatamente esse o ponto do apóstolo nessa passagem. Penso que ele pode estar  colocando “fé” aqui como algo provisório, visto que na eternidade não precisaremos mais dela. Assim sendo, “andamos por fé e não pelo que vemos” significaria, então, algo como “andamos por fé porque é dela que precisamos agora para ver aquilo que ainda não vemos (ou, o que vemos como por espelho, obscuramente). Mas quando chegar o tempo de vermos face a face [cf. 1 Co 13.10-13], não precisaremos mais da fé, visto que aquilo para o que ela apontava se nos tornou em realidade concreta”
Share |

terça-feira, 17 de julho de 2012

8 razões pelas quais precisamos da doutrina da ira de Deus


Por Kevin DeYoung*

Se os pregadores do passado em alguns momentos sofreram de uma fascinação doentia pelo inferno, os ministros de hoje, incluindo não poucos líderes emergentes, são culpados de uma ambivalência indevida sobre o assunto. [...] É certo que não existe espaço para leviandade no que se refere à ira de Deus, mas será que não há lugar para uma advertência apaixonada e viva? Não é bíblico deixar para trás o agnosticismo em relação ao inferno e implorar às pessoas em favor de Cristo, dizendo “reconciliem-se com Deus” (2Co 5:20)? Será que nosso evangelismo se degenera, nossa pregação carece de autoridade e nossas congregações perdem foco porque não temos a doutrina do inferno bem clara diante de nós para colocar nossa face como seixo na direção de Jerusalém?

Precisamos da doutrina da punição eterna. Por repetidas vezes no Novo Testamento descobrimos que entender a justiça divina é essencial para nossa santificação. Crer no julgamento de Deus de fato nos ajuda a ser mais semelhantes a Jesus. Em resumo, precisamos da doutrina da ira de Deus.

Primeiro, precisamos da ira de Deus para nos mantermos honestos em relação ao evangelismo. Paulo discutiu com Félix sobre justiça, domínio próprio e juízo vindouro (At 24:25). Precisamos fazer o mesmo. Sem a doutrina do inferno, nossa tendência é nos envolvermos em todo tipo de coisas importantes que honram a Deus, mas negligenciarmos aquilo que importa para toda a eternidade, que é insistir com os pecadores a que se reconciliem com Deus.

Segundo, precisamos da ira de Deus para perdoar nossos inimigos. A razão de podermos abrir mão de pagar o mal com o mal é que confiamos na promessa do Senhor, segundo a qual ele retribuirá os ímpios. A lógica de Paulo é sadia. “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’” (Rm 12:19). A única maneira de deixar para trás nossas feridas mais profundas e as traições que sofremos é descansar seguros de que todo pecado contra nós foi pago na cruz ou será punido no inferno. Não precisamos buscar justiça com as próprias mãos, pois Deus será nosso justo juiz.

Terceiro, precisamos da ira de Deus para podermos arriscar nossa vida em favor de Jesus. A devoção radical necessária para sofrer pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus vem, em parte, da segurança que temos de que Deus nos vindicará no final. É por isso que os mártires embaixo do trono clamarão: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue?” (Ap 6:10). Eles pagaram o preço derradeiro por sua fé, mas seus clamores manchados de sangue serão respondidos um dia. Sua inocência será estabelecida quando Deus finalmente julgar os que os perseguiram.

Quarto, precisamos da ira de Deus para viver uma vida santa. Paulo nos adverte de que Deus não pode ser zombado. Colheremos aquilo que plantarmos. Somos levados a viver uma vida de pureza e boas obras em função da recompensa prometida pela obediência e a maldição prometida pela desobediência. Se vivermos para agradar à carne, colheremos de Deus a destruição. Mas, se vivermos para agradar ao Espírito, colheremos a vida eterna (Gl 6:6-7). Às vezes os ministros hesitam diante da ideia de motivar pessoas com a ameaça da punição eterna. Mas não foi essa a abordagem de Jesus quando ele disse “não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mt 10:28)? Às vezes precisamos literalmente arrancar o inferno das pessoas por meio do medo.

Quinto, precisamos da ira de Deus para entender o significado da misericórdia. Sem a ira divina, a misericórdia divina não tem sentido. Somente quando sabemos que éramos merecedores da ira (Ef 2:3), que já estávamos condenados (Jo 3:18) e que enfrentaríamos o inferno como inimigos de Deus, não fosse a misericórdia imerecida (Rm 5:10), é que podemos cantar de todo o coração “preciosa a graça de Jesus, que um dia me salvou”.

Sexto, precisamos da ira de Deus para entender como o céu será maravilhoso. Jonathan Edwards é famoso (ou mal-afamado) por seu sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. Ele ainda é lido nas aulas de literatura americana, normalmente como uma caricatura do espírito puritano da Nova Inglaterra colonial. Mas poucas pessoas percebem que Edwards também pregou sermões como “O céu é um mundo de amor”. Diferentemente da maioria de nós, Edwards via em cores vívidas o terror do inferno e a beleza do céu. Não podemos ter um quadro claro de um sem o outro. É por isso que a descrição da Nova Jerusalém celestial também contém uma advertência aos covardes, aos incrédulos, aos depravados, aos assassinos, aos que cometem imoralidade sexual, aos que praticam feitiçaria, aos idólatras e aos mentirosos, cujo lugar “será no lago de fogo que arde com enxofre” (Ap 21:8). É improvável que desejemos nossa salvação final sem saber do que somos salvos.

Sétimo, precisamos da ira de Deus para sermos motivados a cuidar de nossos irmãos pobres. Todos nós conhecemos a afirmação de que os cristãos estão de tal modo voltados para o céu que não prestam para nada na terra. A ideia é que, se tudo o que pensarmos for apenas céu e inferno, terminaremos ignorando ministérios de compaixão e justiça social. Mas que melhor impulso para a justiça social do que a sóbria advertência de Jesus de que, se deixarmos de cuidar do menor de nossos irmãos, iremos para a punição eterna? (Mt 25:31-46)? A ira de Deus é um motivador para que mostremos compaixão aos outros, pois, sem amor, como diz João, não temos a vida eterna e, se não compartilharmos nossos bens materiais com os que passam necessidades, não temos amor (1Jo 3:17).

Oitavo, precisamos da ira de Deus para nos prepararmos para a volta do Senhor. Devemos manter as lâmpadas cheias, os pavios aparados, as casas limpas, a vinha cuidada, os trabalhadores ocupados e os talentos investidos a fim de que não sejamos pegos despreparados no dia do acerto de contas. Somente quando crermos plenamente na ira iminente de Deus e tremermos diante da ideia da punição eterna é que ficaremos despertos, alertas e preparados para que Jesus venha outra vez e julgue os vivos e os mortos.

________________________________________

*Trecho extraído do capítulo 9 do excelente livro Não quero um pastor bacana - e outras razões para não aderir à igreja emergente, de Kevin DeYoung e Ted Kluck (São Paulo: Mundo Cristão, 2011).

Share |

terça-feira, 10 de julho de 2012

Três proposições de Jesus


Por Kevin DeYoung*

Proposição é simplesmente uma declaração que pode ser tanto falsa como verdadeira. “As luzes estão acesas.” “Meu nome é Kevin.” “Deus é amor.” Essas são declarações que podem tanto afirmar como negar. É a definição de uma proposição. A Bíblia é certamente mais do que proposições; ela tem mandamentos e perguntas também. Mas a imensa maioria dos textos da Bíblia — sejam leis, cartas, poemas, sejam narrativas — é composta de proposições. Algumas são formulações doutrinárias (“Não há nenhum justo”), e outras são unidades de uma história maior (“em seguida pegou seu cajado, escolheu no riacho cinco pedras lisas”). Em praticamente todas as páginas das Escrituras lemos sentenças proposicionais. [...] Uma declaração que rejeita uma proposição é, em si mesma, uma proposição, assim como uma declaração feita contra declarações de fé é um tipo de declaração de fé.

[...]

Três proposições de Jesus

A Bíblia não impõe tal distinção entre fé no Jesus revelado na Bíblia e confiança nas declarações proposicionais reveladas sobre ele. Considere alguns exemplos do evangelho de João. Os três vêm dos lábios de Jesus.

“Eu lhes disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que Eu Sou, de fato morrerão em seus pecados” (Jo 8:24).

Para que seja genuína e salvadora, a fé pessoal em Cristo deve ter conteúdo proposicional. Devemos crer que Jesus é o “Eu Sou”. Devemos crer que ele é do alto (8:23), a luz do mundo (8:12) e que é enviado do Pai (8:16). Podemos achar que temos um relacionamento maravilhoso com Jesus e podemos até mesmo amá-lo, mas, a não ser que creiamos que ele é o Cristo, o Filho de Deus, não teremos vida em seu nome (20:31).

“Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido” (Jo 15:7).

As duas coisas são colocadas lado a lado — Jesus permanecendo em nós, e suas palavras permanecendo em nós. Elas são dois lados da mesma moeda. Não podemos ter um relacionamento de permanência com Jesus, a não ser que suas palavras também permaneçam em nós. E se permitirmos que suas palavras — mandamentos, sentenças e proposições — permaneçam em nós, ele também permanecerá.

“Agora vou para ti, mas digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria” (Jo 17:13).

Nossa plenitude de alegria depende de crer, abraçar e apreciar as frases que Jesus pronunciou. As frases não nos salvam. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus é que nos salvam. Mas sem proposições correspondentes à verdade como “esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3), “eu revelei teu nome àqueles que do mundo me deste” (v. 6), “eu rogo por eles” (v. 9) e “tudo o que tenho é teu, e tudo o que tens é meu. E eu tenho sido glorificado por meio deles” (v. 10) — sem essas preciosas declarações teológicas, comunicadas e entendidas por meio de expressões verbais, não teríamos a plenitude da alegria de Jesus.

____________________________________

Trecho extraído do capítulo 3 do excelente livro Não quero um pastor bacana - e outras razões para não aderir à igreja emergente (São Paulo: Mundo Cristão, 2011), de Kevin DeYoung e Ted Kluck.

 

Share |

terça-feira, 12 de junho de 2012

A pornografia e a integridade do casamento cristão

Por Albert Mohler Jr.

A cosmovisão cristã tem de direcionar à instituição do casamento todas as considerações sobre a sexualidade. O casamento é o ambiente da atividade sexual. É apresentado nas Escrituras como o ambiente designado por Deus para a revelação da sua glória na terra, quando um homem e uma mulher se unem no relacionamento de “uma só carne”, na aliança do casamento. Entendido e ordenado da maneira correta, o casamento é uma figura da própria aliança da fidelidade de Deus. O casamento deve manifestar a glória de Deus, revelar os seus dons às suas criaturas e proteger os seres humanos do desastre inevitável que ocorre quando as paixões sexuais são divorciadas de seu devido lugar.

A marginalização do casamento e a antipatia pública com a qual a maior parte da elite cultural aborda o assunto do casamento produzem um contexto em que os cristãos comprometidos com uma ética do matrimônio parecem terrivelmente fora de harmonia com a cultura. Enquanto a sociedade vê o casamento como um contrato particular que pode ser feito e desfeito à vontade, os cristãos têm de ver o casamento como uma aliança inviolável feita diante de Deus, uma aliança que estabelece realidades temporais e eternas.

Os cristãos não devem ficar embaraçados quando falam sobre sexo e sexualidade. Uma hesitação ou embaraço impróprios em tratar desses assuntos é uma forma de desrespeito à criação de Deus. Tudo que Deus fez é bom, e toda coisa boa feita por Deus tem um propósito intencional que, em última análise, revela a sua glória. Quando os cristãos conservadores reagem aos assuntos sexuais com ambivalência e embaraço, difamamos a bondade de Deus e ocultamos sua glória, que deve ser revelada no uso correto dos dons da criação.

Portanto, nossa primeira responsabilidade é mostrar a todas as pessoas o uso correto das boas dádivas de Deus e a legitimidade do sexo no casamento como aspectos vitais da intenção de Deus para o casamento desde o princípio. Muitos indivíduos – especialmente os rapazes – nutrem uma falsa expectativa quanto ao que o sexo representa no âmbito do relacionamento matrimonial. Visto que o impulso sexual masculino é amplamente dirigido ao prazer físico, os homens imaginam freqüentemente que as mulheres são iguais a eles. Embora o prazer físico seja uma parte essencial da experiência feminina do sexo, uma mulher não se focaliza no objetivo único do prazer físico, como acontece com o homem.

Um ponto de vista bíblico entende que Deus demonstra sua glória tanto nas similaridades como nas diferenças que caracterizam homens e mulheres. Criados igualmente à imagem e semelhança de Deus, homens e mulheres foram feitos um para o outro. Os aspectos físicos dos corpos do homem e da mulher exigem a satisfação no outro. O impulso sexual tira o homem e a mulher de si mesmos e os move a um relacionamento de aliança que se consuma na união de “uma só carne” . Por definição, o sexo no casamento não é apenas a realização da satisfação sexual por parte de duas pessoas que compartilham a mesma cama. Antes, é o ato mútuo de se darem que atinge prazeres tanto físicos como espirituais. O aspecto emocional do sexo não pode ser divorciado de sua dimensão física. Embora os homens sejam freqüentemente tentados a esquecer isso, as mulheres possuem meios mais ou menos gentis de tornar isso claro.

Considere o fato de que a mulher tem todo o direito de esperar que seu marido tenha de ganhar o acesso ao leito conjugal. Conforme o apóstolo disse, o marido e a mulher não possuem mais seus próprios corpos, mas agora um pertence ao outro (ver 1Co 7.4). Ao mesmo tempo, Paulo instruiu os maridos a amarem sua mulher como Cristo amou a igreja (ver Ef 5.25). Assim como as mulheres são ordenadas a se submeterem à autoridade de seu marido (v. 22), este é chamado a um padrão de amor mais elevado, semelhante ao de Cristo, e de dedicação para com sua mulher. Por isso, quando digo que um marido tem de ganhar o acesso ao leito conjugal, estou dizendo que um marido deve à sua mulher a confi ança, a afeição e o apoio emocional que a levam a se dar livremente ao marido em um ato de sexo.

A sexualidade é um dom de Deus e foi planejada para tirar-nos de nós mesmos e impelir-nos a buscar um cônjuge. Para os homens, isso significa que o casamento nos chama a deixar nosso interesse egoísta por prazer genital em favor da plenitude do ato sexual no relacionamento conjugal. Expressando em termos mais diretos, creio que Deus tenciona que um homem seja disciplinado, direcionado e estimulado à fi delidade conjugal por meio do fato de que a sua mulher se dará livremente a ele, no ato sexual, quando ele se apresenta como digno da atenção e desejo dela.

Ser específico pode nos ajudar neste ponto. Acredito que a glória de Deus é vista no fato de que um homem casado, fiel à sua esposa, que a ama genuinamente, acordará de manhã motivado pelo desejo e anelo de tornar sua esposa orgulhosa, confiante e segura de sua dedicação a ela. Um esposo que espera realizar o ato sexual com sua esposa terá como alvo de sua vida fazer aquelas coisas que trarão orgulho legítimo ao coração da esposa, se dirigirá a ela com amor como o alicerce de seu relacionamento e se apresentará a ela como um homem que lhe dá orgulho e satisfação.

Considere esses dois quadros. O primeiro é o de um homem que se determina a um compromisso de pureza sexual e vive em integridade sexual com sua esposa. A fim de satisfazer as expectativas legítimas de sua esposa e de maximizar o prazer de ambos no leito conjugal, ele se mostra cuidadoso em viver, conversar, liderar e amar de tal modo que sua esposa acha sua satisfação em dar-se a si mesma em amor. O ato sexual se torna uma culminação de todo o relacionamento, e não um ato físico isolado que é meramente incidental ao amor de um para como o outro. Eles não usam o sexo como um meio de manipulação, nem se focalizam vulgarmente no prazer pessoal egocêntrico; ambos se dão um ao outro em paixão imaculada e irrestrita. Nesse quadro, não há vergonha. Diante de Deus, esse homem pode estar confiante de que está cumprindo suas responsabilidades como marido e homem. Está dirigindo sua sexualidade, seu impulso sexual e seu vigor físico ao relacionamento de “uma só carne” que é o paradigma perfeito da intenção de Deus na criação.

Por contraste, considere outro homem. Ele vive sozinho ou, pelo menos, em um contexto diferente do contexto de casamento puro. Seu impulso sexual direcionado por egoísmo e não por altruísmo se tornou um instrumento de luxúria e auto-satisfação. A pornografi a é a essência de seu interesse e estímulo sexual. Em vez de achar satisfação em uma esposa, ele vê fotos impuras para ser recompensado com estimulo sexual que surge sem responsabilidade, expectativa e necessidade legítima. Expostas diante dele, acham-se uma variedade aparentemente inumerável de mulheres nuas, imagens sexuais de carnalidade explícita e uma abundância de perversões que têm o propósito de seduzir a imaginação e corromper a alma. Esse homem não precisa se preocupar com sua aparência física, sua higiene pessoal ou seu caráter moral aos olhos de uma mulher. Sem essa estrutura e responsabilidade, ele está livre para obter seu prazer sexual, sem levar em conta seu rosto não barbeado, sua indolência, seu mau hálito, o odor de seu corpo ou sua aparência física. Ele não está sob nenhuma exigência de respeito pessoal, e não tem alguém para avaliar a seriedade e a dignidade de seu desejo sexual. Em vez disso, seus olhos vagueiam pelas imagens de rostos sem afeição, contemplando mulheres que não lhe fazem qualquer exigência, não se comunicam com ele e nunca lhe dizem não. Não há troca de respeito, troca de amor e nada mais do que o uso de uma mulher como objeto de sexo para o prazer sexual pervertido e individual desse homem.

Esses dois quadros de sexualidade masculina tencionam incutir propositadamente a lição de que cada homem tem de decidir quem ele será, a quem servirá e a quem amará. Em última análise, a decisão de um homem a respeito da pornografi a é uma decisão a respeito de sua alma, de seu casamento, de sua vida e de seu Deus.

A pornografia é uma difamação da bondade da criação de Deus e uma corrupção desse ótimo dom que Deus outorgou às suas criaturas, motivado por seu amor altruísta. Abusar desse dom significa enfraquecer não somente a instituição do casamento, mas também a própria estrutura da civilização. Escolher a luxúria em lugar do amor é aviltar a humanidade e adorar a falsa divindade [da mitologia grega] Priapus, na mais descarada forma de idolatria moderna.

O uso deliberado da pornografia equivale ao convite voluntário de amantes ilícitos, objetos de sexo e conhecimento proibido ao coração, mente e alma do homem. O dano no coração do homem é incalculável, e o custo da infelicidade humana só será evidente no Dia do Juízo. Desde o momento em que cada homem atinge a puberdade até o dia em que morre, ele luta contra a luxúria. Sigamos o exemplo e a ordem bíblica de fazermos uma aliança com os olhos para não contemplarmos o pecado. Nesta sociedade, somos chamados a ser responsáveis uns pelos outros em meio a um mundo que vive como se nunca haverá de ser chamado a prestar contas.

_______________________________

Capítulo 5 do ótimo livro Desejo e Engano, de R. Albert Mohler Jr., (Editora Fiel, 2009. 133 p.), o qual está disponível para download gratuito no site da editora. Para tal, é necessário cadastrar o email no site.

 

Share |